quarta-feira, 28 de novembro de 2018



 

 

Nostra Aetate


                   A primeira metade do século XX foi marcada por vários conflitos que culminaram nas duas guerras mundiais; provocadas, sobretudo, por um forte nacionalismo, rivalidades, disputas territoriais e econômicas. Além da constante intolerância religiosa que sempre foi praticada na Europa e se fortaleceu com o antissemitismo, propagado pelo nazismo na Alemanha. Tudo isso gerou milhões de mortes em todo o orbe e fez crescer o sentimento de vingança e xenofobia entre as principais nações envolvidas nos conflitos. A igreja católica como única instituição presente em quase todos os países envolvidos nos conflitos. Fez uma espécie de “mea-culpa” e em 25 de dezembro de 1961 o Papa João XXIII por meio da bula papal “humanae salutis”, convoca o concílio vaticano II. É preciso ressalta que a convocação de um evento dessa magnitude para a igreja católica, não é algo comum, em média a igreja costuma fazer apenas um concílio por século, o último concilio havia terminado em 1870, ou seja, é um evento de caráter extraordinário. Até então, os concílios, em sua maioria, tinham sidos convocados para estabelecer dogmas de fé. Contudo, o concílio vaticano II não foi convocado com o intuito de constituir um novo dogma de fé. O objetivo era pastoral e não doutrinal, a igreja precisava modernizar sua forma de comunicação com o mundo e rever sua maneira de se relacionar com as outras religiões.
                       O concílio foi aberto em 11 de outubro de 1962 e partia do principio de que a igreja era responsável pelo deposito da sagrada doutrina cristã e que não poderia em hipótese alguma, se afastar do patrimônio sagrado da verdade, ou seja, a igreja jamais deveria abandona a doutrina de fé que fôra construída ao longo dos seus vários séculos de existência. Porém, a igreja precisava adotar uma forma mais acessível e eficaz de falar com o mundo moderno, sem perder a sua essência. Após quatro calorosas sessões o concilio foi finalizado no dia 8 de dezembro de 1965, produzindo 16 importantes documentos, sendo 4 constituições, 9 decretos e 3 declarações. Desses documentos, dois o “Lumen gentium” e o “Nostra aetate” buscaram tratar da relação que a igreja deveria designar para com as outras religiões, inclusive as ‘não cristãs’. Apazigua as tensões e estabelecer uma relação respeitosa e amigável, era o principal objetivo desses documentos.

                       A declaração “Nostra aetate” da qual tratar o presente texto, reconhecer a religiosidade como algo intrínseco do ser humano e começa a enxergar as outras tradições religiosas de maneira positiva, admitindo que possa existir salvação mesmo nas religiões não cristãs. O cristianismo que por longo tempo sustentou não haver salvação fora da igreja, assume um discurso mais conciliador e tolerante com relação às diferentes tradições religiosas. A igreja olhou para dentro de si e procurou em sua essência, a melhor maneira possível, de estabelecer uma relação cordial com as diferentes tradições religiosas, sem abrir mão da sua doutrina e verdade de fé. De certa maneira, a igreja percebeu que a missão nada despretensiosa designada por Cristo, de “ir a todo o mundo e prega o evangelho a toda criatura”, mostrou-se ser, uma tarefa bastante árdua e difícil de ser alcançada. Após vários séculos de ação missionária o cristianismo conseguiu chegar a todos os continentes e em quase todas as nações. Contudo, converter toda a humanidade ao cristianismo tornou-se algo utópico e impossível de ser alcançado.
              A vitalidade das chamadas religiões mundiais: hinduísmo, budismo, judaísmo, confucionismo e Islamismo, mostrou a Igreja católica que mesmo com muito esforço pastoral, a conversão global ao cristianismo era uma meta muito difícil de ser alcançada. A multiplicidade religiosa fez a Igreja muda o discurso e aceitar a independência religiosa dos povos não cristãos. Na declaração “Nostra aetate” fica bem claro isso, a Igreja procura favorecer a unidade e a caridade entre os homens, reconhecendo a existência de outros caminhos para se chegar a Deus. Contudo, deixa claro em seu discurso que a sua estrada é a melhor pavimentada para se alcançar a Deus, ou seja, a mais completa em doutrina.
                         A declaração “Nostra aetate” vai buscar fomentar por meio da tolerância e do respeito mútuo, a união e a reciprocidade entre os povos, considerando algo que existe de comum em cada individuo, o seja, a busca de um mundo melhor, de paz e harmonia. Ao se referir ao Islamismo a Igreja buscar traços comuns entre as duas doutrinas, convocando cristãos e mulçumanos a supera o passado conflituoso e a exercitarem a compreensão mútua para que juntos possam defender e promover a justiça social. Com relação ao judaísmo documento vai reconhecer sua importância para o cristianismo e o grande patrimônio espiritual comum entre as duas religiões. Além disso, a Igreja também vai se posicionar contra o antissemitismo e quaisquer forma de perseguição contra os judeus, repudiando as manifestações de ódios em qualquer período que tenham ocorrido. A Igreja ensina que Cristo sofreu voluntariamente e que sua morte na cruz é um sinal de amor e salvação e não pode servir de justificativa para propagação do ódio contra os judeus.
                      Com relação ao hinduísmo e ao budismo a Igreja vai reconhecer a busca do ser humano pelos mistérios divino. Porém, fica evidente em suas declarações a dificuldade e o esforço que a Igreja faz, para compreender essas  religiões que não são monoteístas e que tem doutrinas imensamente diferente do cristianismo. Contudo a igreja busca olhar para essas religiões com sincero respeito, reconhecendo que ali também existe o sagrado o verdadeiro o divino e o santo.
                       Por fim a Igreja deixou claro em suas declarações que nela se encontra a plenitude dos meios de salvação, isso, porém, não quer dizer que este seja o único e exclusivo caminho. É possível afirma que existe uma certa ambiguidade entre e novo discurso da igreja católica na tentativa de se moderniza, com relação a manutenção da sua doutrina. Contudo, ao chamar para si a responsabilidade, e condenar veementemente toda e qualquer forma de discriminação ou violência praticada por motivos de raça, cor ou religião. O Concílio teve fundamental importância no apaziguamento das tensões, provocadas principalmente pela visão etnocêntrica de mundo, que a Igreja direta ou indiretamente ajudou a criar.   
Referencias bibliográficas:

DUPUIS, Jacques. O cristianismo e as religiões: do desencontro ao encontro. São Paulo: Loyola, 2004, pág. 40-69; 88-96.



O Cristianismo e as Religiões (o fenômeno da aproximação e o RCC)

O cristianismo e suas várias denominações religiosas é a fé mais professada no mundo e está presente em todos os continentes. Mas, não foi sempre assim, o cristianismo surgiu como uma vertente subversiva do judaísmo, sem, no entanto, nunca ter rompido diretamente com o mesmo. A relação de Jesus com o Judaísmo é de continuidade e aperfeiçoamento, pois em nenhum momento houve a intenção de superar o judaísmo, ou mesmo, substituí-lo por uma nova religião. Pelo contrário, em todo o evangelho é possível identificar claramente que a matriz dos ensinamentos pregados por Cristo, está completamente ligada a tradição judaica. Porém, mesmo existindo a vontade de continuidade é notório a divergência nas ideias e a ambiguidade criadas pelo discurso de Cristo, pois, ao mesmo tempo que tenta conciliar-se com a antiga lei, impõe a mesma uma renovação.Tudo isso gera conflito entre a tradição religiosa dominante o judaísmo e a sua mais nova vertente, récem criada por Jesus, a consequência desse embate é a perseguição a Cristo e a suas novas ideias.
Jesus vai romper a barreira do mundo religioso judeu, estendendo a ação salvifica de Deus para os outros povos, sua relação de respeito e afeto para com os pagãos, evidencia que o reino de Deus anunciado é para todos, e não mais, apenas para os judeus. E este reino começa ainda na vida terrena de Jesus, portanto, seu objetivo não era criar uma igreja diferente, mais sim instaurar o reino de Deus que começa aqui ainda na terra. A igreja primitiva nos primeiros séculos da era cristã, também não vai romper automaticamente com o judaísmo, o processo de construção do cristianismo é lento, porém progressivo e continuo, aos poucos vai se gestando uma identidade nova, em um processo longo que vai evoluindo para o desenvolvimento de uma consciência religiosa distinta do judaísmo. Ao se expandir o cristianismo vai fugindo do horizonte da pregação e missão de Cristo que é o reino de Deus, e começa a estabelecer mediações entre o homem e a salvação, ou seja, aos poucos o cristianismo quando se torna a vera religione vai reconstruindo o muro que Jesus havia derrubado ao romper a barreira do mundo religioso judeu. Construíndo o seu próprio muro e determinando quem pode entra dentro dele ou não, com isso, vai criando-se dentro do cristianismo um desprezo pelas crenças que não professam a mesma fé.
            Apesar de ser pelo menos no primeiro momento uma “versão não autorizada do judaísmo” o cristianismo vai se apropria e fazer uma interpretação do antigo testamento, para legitimar as novas verdades criadas no novo testamento. A tradição biblica é forjada em um contexto de legitimação da autoridade, a promessa feita a Abrãao, as hostilidades em relações a outras religiões no antigo testamento. Tudo isso criar a auto compreensão judaica de povo eleito e essa interpretação vai respigar no cristianismo que também vai se ao proclamar como o único e verdadeiro povo eleito. Essa restrição aos demais povos da salvação que provém de Deus, não se faz presente na pregação de Cristo, pois no seu discurso estava claro que a salvação era destinada igualmente a todos os homens. Portanto, existe na pregação de Cristo uma universalidade da salvação, e não um exclusivismo que a noção etnocêntrica de povo eleito provocou. A todo momento Jesus anda com os pagãos e conversa com os samaritanos, por mais de uma vez sua pregação é dirigida as ovelhas perdidas da casa de Israel, ou seja, em nada se aproxima do exclusivismo criado pelo cristianismo.
            Após vários séculos do pensamento exclusivista o cristianismo vai tentar se abrir ao dialogo com as outras religiões, reconhecendo os valores positivos que estam contidos nas diversas tradições religiosas. Isso só vai acontecer na década de sessenta com o Concílio vaticano II, porém, apesar de ser uma iniciativa de diálogo e respeito, o cristianismo católico vai enxergar as outras religiões com suas “lentes” ainda voltadas para si. Pois ao mesmo tempo em que se abrir ao diálogo, a igreja não abri mão de nenhuma das suas verdades de fé, se auto afirmando com única portadora e detentora do depósito sagrado da fé. O concílio vaticano II foi o primeiro grande passo da igreja rumo ao diálogo, porém, não estabeleceu uma relação de igualdade no discurso, algo que hoje está se discutindo com um equilíbrio maior. Contudo, é preciso resaltar o contexto em que o concílio foi convocado, pós duas grandes guerras mundiais, somado ao clima de rivalidade e xenofobia presente em toda a Europa. É preciso reconhecer a importância que o concílio teve para aplacar os ânimos exaltados, e a evolução do seu discurso após vários séculos de uma visão exclusivista de mundo que só gerou discórdia e conflitos.
É nesse contexto ainda na década de sessenta pós-concílio vaticano II que surge a Renovação Carismática Católica, um seguimento novo da igreja que surgiu nos EUA após um retiro espiritual. O movimento RCC como ficou conhecido, sofreu forte influência do protestantismo pentecostal e também pelas mudanças que estavam ocorrendo na igreja católica pós-concílio. Assim como o concílio vaticano II, esse novo seguimento da igreja não buscava abolir nenhum dogma. O RCC apenas oferecia uma abordagem nova e inovadora num período de modernização onde a igreja buscava criar novas linguagens para se comunicar melhor com o mundo. Assim sendo o RCC conseguiu dá um fôlego novo a igreja, principalmente com relação a celebração da missa que passou a utilizar músicas mais alegres e uma flexibilidade maior da rígida liturgia. O discurso ecumênico é a nova realidade da igreja e o RCC só se apropria e ressignificar as práticas do protestantismo pentecostal, devido a esse discurso da igreja de aproximação com outras religiões, reconhecendo que existe mais caminhos que levam a missão salvífica de Deus para o homem.
Os membros do RCC acreditam em um fenômeno chamado de batismo no espírito santo, este batismo não é um sacramento novo da igreja, mas sim, uma experiência pessoal de conversão que o indivíduo sentir ao ser preenchido pelo espirito santo. Isso ocorre em momentos oração quando o indivíduo passa por um processo de efusão no espirito santo, muitas vezes acompanhada do “repouso no espirito santo” que é uma espécie de desmaio consciente durante o momento de oração. Existe também a chamada oração em línguas que não corresponde a nenhum idioma especifico, seria uma forma de linguagem apenas de Deus e dos anjos. Essas duas práticas do RCC não são recomendadas pela igreja, porém não são condenadas, apenas a igreja tentar separar o que realmente é a inspiração do espírito santo e surge em momentos de oração involuntariamente, e o que é induzido apenas pelo animador do grupo quando está reunido em momento de oração.
O RCC também é o grande responsável pela propagação na igreja dos chamados “dons do espirito santo” estes são: fortaleza, sabedoria, entendimento, ciência, conselho, piedade e temor a Deus. É só após o RCC que esses dons que são recebidos durante o sacramento da crisma, vão ser sistematicamente difundidos entre seus membros. Os dons são uma espécie de poderes concedidos pelo espírito santo, para o bem viver e as lutas diárias do indivíduo, durante seu itinerário no caminho que o leva ao céu. Hoje existe mais de cem milhões de engajados ao RCC no mundo, sendo o seguimento que mais cresce dentro da igreja.

Referências:
http://cleofas.com.br/os-sete-dons-do-espirito-santo/. Acesso em: setembro 2017 às 23:30

http://www.rccbrasil.org.br/interna.php?paginas=42. Acesso em: setembro 2017 às 00:30

DUPUIS, Jacques. O cristianismo e as religiões. Do desencontro ao encontro. São Paulo: Loyola, 2004

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Resenha do livro História noturna de Carlo Ginzburg

O renomado Historiador italiano Carlo Ginzburg, nasceu na cidade de Turin, Itália, pertencia a uma família de judeus intelectuais, começou seus estudos em Tarem e depois foi para Roma e fez universidade em Pisa, na Escola Normal Superior, foi professor da universidade de Bolonha e da universidade da Califórnia em Los Angeles. Ginzburg é especialista na analise dos processos da inquisição nos séc. XVI e XVII, e muito conhecido do publico brasileiro, principalmente pela obra “o queijo e os vermes”. Apesar de ser um dos pioneiros no estudo de micro história, no livro história noturna o autor não reduz a lente de observação, pelo contrário, Ginzburg amplia e estende o campo de observação, para muito além da Europa, estudando a origem e evolução de vários mitos, até se chegar ao pensamento coletivo comum, de como seria constituindo o Sabá.
Ginzburg, não tem nenhuma confissão religiosa revelada, porém, o seu trabalho da grande importância à religião, devido ao fato do autor ter se especializado em estudar a história das feitiçarias e a importância dos fenômenos religiosos, o que não era algo comum na sua época. O autor trabalhou muito a perseguição imposta à feitiçaria, a escolha de estudar esse tema, se deu pela fascinação que o autor nutriu pelos contos de fada que leu durante a infância, a ligação entre feitiçarias e contos de fadas teve um papel muito decisivo na sua escolha do seu objeto de investigação. História noturna, foi o livro em que o autor trabalhou durante mais tempo, ao todo foram 15 anos de dedicação, com longos intervalos, o próprio autor revela que chegou a pensa que nunca conseguiria terminá-lo, o livro foi lançado em abril de 1989, e aborda o problema do sabá, numa perspectiva ao mesmo tempo histórica e morfológica.
A obra história noturna decifrando o sabá de Carlo Ginzburg, diferente muito de outras obras famosas como o “queijo e os vermes” e “andarilhos do bem”, pois, está obra não se caracteriza como micro história. Pois apesar de manter a temática popular, a obra faz uma longa viagem pelo universo dos mitos em diferentes épocas e lugares geograficamente distantes uns dos outros. A obra também não falar de uma pessoa específica e seu contexto histórico, mais sim das origens antigas por trás da imagem enigmática do sabá. Ginzburg vai relata uma serie de trocas, de contatos e filiações entre diversas culturas, também trabalha na obra a transmissão de estruturas de linguagem pelo inconsciente. Para Ginzburg, os relatos sobre tortura, feitos a respeito do sabá, têm algo comum tanto nas respostas dos interrogatórios, como nas perguntas feitas pelos inquisidores e juízes. Para o autor, tudo isso remete a um longo processo histórico na construção de mitos, que transpõe a barreira do visível e liga pela inconsciente o mundo dos vivos e dos mortos, rompendo a barreira do real e do imaginário.
Ginzburg vai faz um passeio pela Europa, Ásia, África e até mesmo a América, fazendo um paralelo entre os mitos e buscando similaridades e um possível elemento comum, seja estrutural ou literal. Na Grécia, a principal fonte de mitologia universal, Ginzburg se detém um pouco mais em sua obra e encontra estruturas análogas, nas diversas narrativas da mitologia grega. Autores como: Eurípides, Virgílio, Plutarco, Tucídides, Tertuliano, Heródoto, Hesíodo, Homero entre outros. Possuem vários elementos estruturais que se repetem em suas narrativas, como o “pé inchado” de Édipo e o “pé preto” de Melampo, ou mesmo o calcanhar de Aquiles. Para Ginzburg as vulnerabilidades e deficiência física nos protagonistas dos mitos, sejam no calcanhar, ou em uma perna ferida, seja em um simples mortal ou em um deus, como no caso de Hefesto. Repetem-se e refletem formas diferentes com o mesmo traço simbólico, que vai forma um substrato mitológico antigo e inconsciente, que se fará presente na elaboração de estereótipos sobre o sabá e nos tratados demonológicos dos inquisidores, no século XIV e XV. O autor propõe uma interpretação, onde por trás da imagem enigmática do sabá, relacionado a encontros noturnos, onde se pratica orgias, se faz porções mágicas, invoca-se o diabo, entre outras coisas, se revela as expressões de mitos e ritos, advindos de várias origens

Ao apresenta sobre a coxeadura, por exemplo, Ginzburg mostra como o mesmo fenômeno aparece também num rito terena, onde há inúmeros mitos documentados nas Américas, China, na Europa Continental e no Mediterrâneo, todos ligados, numa espécie de conexão transcultural.  O livro está dividido em três partes: Na primeira o autor faz um levantamento histórico, muito minucioso, já na segunda, Ginzburg se utiliza de uma série documental no âmbito geográfico, a última parte do livro o historiador faz um levantamento das estruturas simbólicas, e a sua maior preocupação é descobrir as origens dos elementos, convergidos, que criaram os estereótipos da suposta reunião de bruxas, onde também são analisados os aspectos culturais de diversas civilizações, lugares e épocas distintas.
 Para o autor o mito nos convida a reconhecer a simetria, uma característica dos seres vivos sobre mitos e ritos que se referem à morte, de maneira insistente ao retorno, ou seja, a idéia de voltar à vida. O mito ou rito são transmitidos por meio de mecanismos históricos, as regras formais de sua própria reelaboração, presente na obra o autor faz diversas comparações entre mitos gregos o que neles há em comum com os demais e também outras culturas, onde também são praticados. Para tentar se chegar às origens folclóricas do sabá, Ginzburg estuda de maneira minuciosa a feitiçaria e cultos agrários, como já fazia em suas outras obras. Porém, nesta obra o objeto de pesquisa é expandido para além-fronteiras, não se contentando apenas com o continente europeu, tudo isso, para se chegar às raízes da idéia, de uma sociedade de bruxas e feiticeiros hostis à cristandade. O Autor vai estudar cultos presentes em toda região mediterrânea: nos povos gregos, romanos, celtas, germânicos, além da China pré-histórica, ao Japão e a Lapônia, Ginzburg irá identificar nessas diversas regiões separadas geograficamente, cultos às deusas noturnas, divindades ora feminina, ora masculina, presente em um contexto geográfico-cultural eurasiático.
Por fim, mais não menos importante, é preciso salienta que Ginzburg tece em sua introdução uma crítica, discordando de alguns historiadores como: Trevor-roper e Keitj Thomas; pelo fato dos mesmos, ao tratarem do tema, não colherem material sobre o que pensam as pessoas que acreditam e praticam o sabá, com um apanhado mais próximo à antropologia, estes historiadores foram restritos ao movimento da inquisição e penalidade dos juízes. Ao contrario o objetivo de Ginzburg foi de combinar a forma estrutural e historia do sabá. A leitura dessa obra proporciona ao leitor, mergulhar na mentalidade medieval a respeito do sabá e como a igreja da época, satanizou a cultura dita “paga”. Ginzburg desvendou uma historia “noturna”, que envolve mitos, simbolismo e o medo de uma população, além da coexistência e conflito entre a cultura folclórica medieval e a cultura eclesiástica.

REFERÊNCIAS:

Estudos históricos: Rio de Janeiro, vol. 3. n 6. 1990 pgs 254 – 263.
Historia Noturna decifrando o sabá Tradução Nilson Moulin Louzada2ª edição - 2ª reimpressão - Companhia das Letras






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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Marcos Antônio de Souza e Josué Modesto dos Passos Subrinho

O presente trabalho ente trabalhotem como objetivo central fazer uma analise que busque promover a interlocução entre duas obras: Memoria sobre a Capitania de Sergipe de Marco Antônio de Souza e Reordenamento do trabalho. Trabalho escravo e trabalho livre no nordeste açucareiro. Sergipe 1850-1930. Está de Josué Modesto dos Passos Subrinho. Obras escritas em períodos bastante distintos, a primeira do Início do século XIX, a segunda no final do século XX. Primeiramente é preciso conhecer um pouco dos autores, começando por Marcos Antônio de Souza, padre nascido em Salvador no ano 1871, ingressa na carreira eclesiástica e se tornar vigário do Pé do Banco, hoje Siriri, em Sergipe. Foi um padre que fez o seminário dentro dos moldes do iluminismo, em consequência da nova orientação de estudos, posterior a reforma Pombalina, reforma está que expulsou em 1860 os jesuítas do Brasil e pôs nas mãos do estado o sistema educacional do Brasil. Além de ter procurado organiza melhor a exploração das riquezas na colônia, aumentando os ganhos de Portugal, tão necessários para alcançar sua passagem da etapa   mercantil para uma economia industrial. Neste contexto está Marco Antônio de Souza, influenciado pela efervescência de ideias novas, que surgiram na Europa do século XVIII e XIX, entre elas está os ideais liberdade, igualdade e fraternidade da revolução Francesa, o positivismo e o liberalismo. Este último foi o que mais inspirou Marcos de Souza em sua obra e é facilmente percebido em toda sua escrita. O liberalismo pregado no livro memorias sobre capitania de Sergipe tem como principal referência, o inglês Adam Smith e sua obra “A riqueza das nações”  publicada pela primeira vez em Londres em março de 1776. Adam Smith foi um dos principais, se não o principal, teórico do liberalismo econômico, suas ideias baseava-se na total liberdade econômica para que a iniciativa privada pudesse se desenvolver, sem a intervenção do estado. Segundo o mesmo a livre concorrência provocaria uma queda de preços e o desenvolvimento tecnológico, necessários para o aumento da produção e uma melhor qualidade dos produtos. As ideias de Adam Smith caíram como uma luva, nas mãos da burguesia europeia, que pretendia acaba com a política mercantilista europeia e com os direitos feudais que ainda persistiam em algumas regiões da Europa, promovendo uma economia industrial forte e sem a interferência do estado. Essa obra teve grande repercussão em toda a Europa e em suas colônias. E foi uma referência bastante significativa na obra de Marcos Antônio de Souza, evidenciada nas três citações de Adam Smith feitas no decorre de sua obra.
Em seu livro, Marcos de Souza aponta as potencialidades econômicas da capitania de Sergipe d’EL-Rei e sugeri melhorias, essas voltadas para o interesse e grandeza da nação. Sua obra indicar o caminho para o progresso, mostrando como aumentar a produção, otimizar os lucros e promover o progresso da agricultura, aliás a palavra progresso é tema constante em toda sua obra. Marcos de Souza enxerga o atraso como falta de produtividade e quem não é produtivo é descrito em seu texto como errante, preguiçoso e indolente. Por vezes se mostra preocupado com a insuficiência da produção, segundo o mesmo a produção tem que exceder, para que se possa vender o excedente. Em seu texto a indústria é apontada como uma fonte perene de opulência e riqueza, a inexistência de máquinas e equipamentos modernos, são as principais causas da improdutividade e pobreza da população, a falta desses meios retarda o progresso da população. Chega a cita a Inglaterra como modelo de prosperidade, sugerindo a industrialização como fonte de riqueza e prosperidade para a nação. Marcos de Souza mesmo sendo padre trata em sua obra de temas bastantes distintos, como geografia, composição etnográfica, economia, demografia,  social e politica de Sergipe. Essa variedade temática percebida em sua obra mostra quão elevado era o seu nível intelectual, além de demonstra o quanto esse homem se encontrava inteirado das várias correntes teóricas que surgiram ainda no século XVII.
            Mesmo sendo um livro de memorias, fora dos moldes acadêmicos, a obra de Marcos Antônio de Souza não foi negligenciada pela historiografia sergipana, sendo citado pelos principais nomes da nossa historiografia, seja explicita ou implicitamente, seja para criticar ou para legitimar uma tese. Entre os autores que beberam dessa fonte inesgotável, para historiografia sergipana, está Josué Modesto dos Passos Subrinho, este será tratado no texto que se segue, onde será demonstrado como esse autor recepcionou Marcos de Souza em sua obra.
            Josué Modesto dos passos sobrinho é natural de Ribeirópolis, nasceu em 22 de janeiro de 1956. Dedicou sua formação a economia, graduando-se em Ciências Econômicas pela UFS em 1977, concluindo seu mestrado 1983 e doutorado em ciências econômicas na Unicamp em 1992 na área de história econômica. Foi vice-reitor no período 1996 a  2004 é professor associado do departamento de economia da UFS e atual reitor da universidade federal da integração latino Americana. UNILA. O livro que o presente texto ira trata desse autor é o “Reordenamento do trabalho. Trabalho escravo e trabalho livre no Nordeste açucareiro. Sergipe 1850 – 1930”. É um trabalho de história econômica, voltado para as questões da transição do trabalho escravo para o livre e suas implicações na sociedade, mostrando as várias faces de uma mesma história.  Sem estabelecer dogmas, muito menos generalizações que sirvam para todo o estado. E fazendo uma critica as generalizações dogmáticas, feitas pela historiografia tradicional a toda região do nordeste.
            O livro é uma tese de doutorado em economia defendida no instituto de economia da UNICAMP em 1992, sob a orientação do Prof. Dr. Luís Felipe de Alencastro. A obra foi produzida com o objetivo de apontar novos ângulos e novas indagações, com relação à questão da transição do trabalho escravo para o trabalho livre no Brasil, e mostra as especificidades de Sergipe nesse processo. Seu trabalho preenche uma lacuna não somente da historiografia sergipana, mais também da historiografia nacional, que segundo o autor, desprezou fatos importantes na questão do engajamento do trabalho escravo para o trabalho livre no Nordeste. O autor vai seguir o caminho inverso da historiografia tradicional, composta por autores como: Celso Furtado, Caio Prado Junior, Emília Viotti da Costa, entre outros, esses autores defendem que a estagnação econômica do nordeste, teria provocado o fim da sociedade patriarcal e excedente de mão de obra, suficiente para supri não só as necessidades do nordeste como os de outras regiões do país, tornando assim fácil a transição do trabalho escravo para o livre. A obra segue a linha marxista e a nova historia corrente teórica da escola dos Annales, que despreza acontecimento isolado e insiste na “longa duração” e analise das estruturas particulares de cada época, derivando sua atenção da vida politica para a atividade econômica e a organização social. O livro usa uma infinidade de fontes, várias bibliotecas e arquivos, no Rio de janeiro, arquivo nacional, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, arquivo público de Sergipe, Biblioteca central da UFS, Biblioteca do Instituto Histórico e geográfico de Sergipe, Biblioteca do ministério da fazenda, em salvador, biblioteca da faculdade de filosofia da UFBA.                                                                              
            A obra enfatiza as dificuldades encontradas pelos senhores de engenho na transição do trabalho escravo para o trabalho livre. O autor discorda de uma total estagnação econômica do Nordeste e também da suposta fácil transição do trabalho escravo para o trabalho livre. Segundo o mesmo, as mais importantes obras que tratam do tema partem da hipótese de que houve uma drenagem de escravos dos engenhos para a economia cafeeira e de uma fácil substituição. Em sua dissertação o autor vai mostra que pelo menos em Sergipe, não foi bem assim. Os senhores de engenho dos principais centros produtores, não só não venderam seus escravos para proprietários de outras regiões, como compraram escravos em outras regiões da província e em outras regiões do Brasil. Argumenta ainda, que a redução da população escrava foi muito mais acentuada nas Províncias do nordeste da pecuária e do algodão e agricultura de subsistência, fato que segundo o autor, tem merecido pouco destaque. Mostra ainda que entre 1873-1887, Sergipe teve a menor redução da população escrava do Nordeste, enquanto neste houve uma redução de 68,52% em Sergipe a redução foi de 48,82%. Outra questão levantada em seu livro é sobre o monopólio das terras agricultáveis no nordeste. Subrinho vai demonstra que embora não se tenha dados seguros, á fortes indícios de que os engenhos sergipanos não possuíam grande extensão territorial e de que os senhores de engenho nunca chegaram a monopolizar efetivamente a propriedade fundiária na zona da mata sergipana. Para Subrinho não se pode associar os engenhos sergipanos do século XIX aos proclamados engenhos nordestinos do século XVI, XVII, de terras a abundantes, exigentes de muitos capitais e de abundante mão-de-obra.        
“São muito ativos os moradores se Sergipe, por que com vinte cativos fazem maior quantidade de açúcar do que muitos ricos lavradores do recôncavo da Bahia com os enfraquecidos braços de cem escravos” (Souza, 1808:26)
            Na citação acima Subrinho usa um trecho do livro Memorias Sobre Capitania de Sergipe, para  legitima sua tese de que os engenhos em Sergipe eram menores. Se analisarmos a citação abaixo, vamos perceber que não foi esse o objetivo de Souza ao fazer essa comparação.

“Ali são mais bem tratados estes homens desgraçados, sujeitos à lei do cativeiro; são nutridos com saudáveis alimentos de vegetais com feijões e com milho que por toda parte colhe com abundância.” ( Souza, 1808: 26)
            Porém, mesmo que o objetivo de Souza não tenha sido a dimensão territorial dos engenhos, mas sim a qualidade de vida dos escravos e sua produção. Não da para dizer,  que foi um uso inapropriado, pois o trecho usado pro Subrinho deixa clara a dimensão territorial dos engenhos Sergipanos com relação aos do recôncavo baiano. 
Ainda com relação à mão-de-obra, Subrinho vai confirma a existência de muitos braços, mais não disponíveis a qualquer tempo, pois os mesmos não estavam expropriados de meios de subsistência. Em vários momentos da obra a fácil subsistência é tratada por Subrinho, tema também recorrente na obra de Souza, evidenciado nas citações abaixo.
“ Vivem contentes os povos de todos os distritos daquela capital, porque gozam das mais fáceis cômodas da vida humana. Nos seus mangues se criam diversas especeis de mariscos; nos seus rios se nutrem saborosos pescados: robalos, carapebas, piauis, tainhas e gostosas curimãs.” ( Souza, 1808: 25).

“As terras são fertilíssimas; as margens dos rios são cobertas de húmus ou massapê em que se plantam os feijões, que serve de ordinário sustento a todos os habitantes deste território, de sorte que ali não há mesa em que senão apresente esta vianda”. (Souza, 1808:25).

Subrinho vai mostra que converte população livre em mão-de-obra para a lavoura não foi tão simples assim, foi preciso elabora medidas de repreensão à ociosidade. Engana-se quem pensa que ser livre é ter a liberdade de não trabalha, uma aliança entre os senhores de terras e estado foi feita, com o objetivo de criar leis que obriga-se a população livre ao trabalho. Porém era impossível conciliar os valores do liberalismo, da liberdade individual, pautada na constituição da monarquia, visto como os valores fundamentais da civilização ocidental, com a aplicação de mecanismos de coerção, com a criminalização da ociosidade, tão defendida nos diversos jornais de Sergipe e nos relatórios da província e da câmara. Com o argumento que tais ideais só funcionavam na Europa onde a subsistência era difícil. As leis de coerção era uma opção pelas trevas e pelo atraso, por isso a inviabilidade delas.
            Por fim mais não menos importante Subrinho também mostra que no nordeste também houve crescimento econômico, em ritmo lento se comparado com o Sudeste cafeeiro, mais houve crescimento. Além de que os escravos foram à saída econômica para muitos senhores de engenho, em tempos de crise açucareira, pois permitiram a transferência para o sudeste a preço de ouro de um ativo de futuro incerto. O Subrinho vai aponta ainda as várias dificuldades enfrentadas por Sergipe com relação as importações, exportações na produção de gêneros alimentícios. E mostra apenas os motivos que levaram ao desenvolvimento, ou que barraram o mesmo. Sua obra abre um campo para análise ainda vasto e com muitas possibilidades para outras interpretações.

REFERÊNCIAS
SOUZA, Marcos Antônio de. Memória Sobre a Capitania de Sergipe, ano de 1808. Aracaju-Sergipe, 2005.

SUBRINHO, José Modesto dos Passos. Reordenamento do Trabalho: Trabalho Escravo e Trabalho Livre no Nordeste Açucareiro. Sergipe 1850/1930.  Aracaju Funcaju, 2000.  
SILVA, José Calazans Brandão da. Aracaju e outros temas sergipanos. Aracaju: Governo de Sergipe – FUNDESC, 1992.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Nicolau Maquiavel nasceu no dia 3 de maio de 1469 em Florença, iniciou sua vida pública servindo a chancelaria da república Florentina em 1498, como funcionário do mais alto escalão, atuando em funções burocráticas, como assessor político e na diplomacia; perde seu cargo dado a derrubada da republica pela família Médici, que restabelece a monarquia. Maquiavel é preso, torturado e acusado de conspirador, fica impedido de acessa qualquer documento público. Perdoado pelo papa Leão X, e expulso da vida pública, passa a viver em prisão domiciliar nos arredores de Florência na região da Toscana Itália, onde passou a escrever suas obras; a mais famosa delas "O Príncipe" tornou-se um dos livros mais debatidos do ocidente, sendo escrito em 1513 e oferecido ao então príncipe de Florência, Lourenço Médici, o mesmo ignora a obra que só é descoberta vários anos depois em uma reforma realizada no palácio Médici. O livro é publicado postumamente em 1532, cinco anos após a morte de Maquiavel, que morre em 1527, ou seja, o autor em vida nunca teve o prazer de saber quão grande repercussão sua obra fez e continua fazendo até hoje.
O livro equivale a vinte e seis capítulos curtos de analise e tem a intenção nada modesta de ensinar como o príncipe deve governar, ou seja, Maquiavel escreve um manual para o bom governante, com opiniões que vão desde a classificação dos governos até a seleção de pessoal. Estando muito familiarizado com a ambigüidade moral do poder e sendo muito realista, cria algo que até aquele momento não existia; o estado-nação. Assim como os políticos de hoje, Maquiavel justifica medidas desagradáveis e fraudulentas como necessárias para o bem comum. O príncipe bom não necessariamente é um homem bom, pois muitas vezes é forçado a agir desrespeitando a boa fé a caridade e a religião. Segundo Maquiavel o príncipe precisa estudar sobre a guerra e preferir ser temido, que ser amado, para isso é necessário aprender como e quando ser cruel. È claro que não se deve deseja a violência, mais nem sempre quando se agir com boas intenções os resultados são bons. O livro tem como foco principal a manutenção do poder, mostrando com objetividade os resultados em detrimento dos meios.
A demonização de Maquiavel vem logo após sua morte, num período entre 1530 e 1540, em que a contestação das religiões estava no seu auge, e ambos os lados virão o demônio em Maquiavel. Seu nome e sua região de origem passaram a ser associados à maldade. Pois estimulou-se o estigma de que tudo que fosse italiano do sul e católico era de alguma forma Maquiavélico, palavra essa que virou sinônimo de esperteza, de pessoa ardilosa, demoníaca, ou seja, um símbolo da maldade, de certa forma Maquiavel foi colocado no “inferno” após sua morte. È importante ressalta que para os seus contemporâneos, Maquiavel nunca foi visto como maquiavélico, esse estigma só veio após sua morte dada à repercussão da obra. Esta bastante difundida na Inglaterra e muito representada em teatros durante todo o século XVI, com inúmeras peças, sendo todas vinculando o nome Maquiavel ao mal.
Maquiavel é o primeiro pensador político da ética cristã que analisou sistematicamente as condições necessárias para se manter no poder. O Príncipe é um livro sobre o poder, e foi escrito num período de grande instabilidade política, onde o sistema medieval está desmoronando e a idéia de que o homem é senhor do seu próprio destino começa a ganhar força, é o início do renascimento. Nesse período exércitos mercenários caracterizavam o sistema militar de grande parte da Europa, a Itália renascentista se encontrava dividida numa anarquia de cidades-estados, com grande alternância entre os seus governantes; príncipes e papas desfaziam alianças constantemente, assassinatos, orgias no vaticano, este era o mundo de Maquiavel, a separação entre política e religião torna-se um tema importante, que ganhar força em sua obra.
A tradição do mundo clássico, tanto em Platão como em Aristóteles defendia um regime ideal que serviria de estrela polar para se pensar a política no tempo presente, já a corrente cristã afirma que o homem tende ao bem, procura e deseja o bem e se essa for à tendência natural dos homens, a política deveria seguir a mesma tendência, segundo a tradição cristã a ética deveria esta repartida sobre a política. Maquiavel vai se opor a essas duas grandes estruturas, afirmando que “dos homens em geral podemos dizer o seguinte, que eles são volúveis, ingratos, simuladores, inimigos do perigo”. Os homens não se acomodam a paz, os homens desejam o conflito e são naturalmente divididos. Portanto não existe campo político sem a dimensão da força. Mesmo sem contesta os dogmas essenciais da fé católica, seu livro, pois os dogmas de lado quando foi pensar e falar em política. O esforço de Maquiavel é a desregulamentação do universo cristão e do universo antigo, se contrapondo tanto a idéia de regime ideal, quanto à idéia das virtudes cristã, seu método rompe com a tradição medieval ao fundamentar-se no empirismo e na analise dos fatos recorrendo à experiência histórica de Roma antiga.
O conceito de natureza humana para Maquiavel afirma que o homem é um ser ambicioso e que não satisfação absoluta na vida humana. A natureza humana é má, o homem é um ser egoísta e interesseiro, antes de qualquer coisa, pensa no seu lado, almeja a glória e a riqueza. Os homens são maus por essência e bons por necessidade, “o homem que queira professar o bem por toda parte é natural que se arruíne entre tantos que não são bons”. Maquiavel se refere ao mundo real, onde as pessoas são egoístas e cheias de imperfeições, onde os homens ficam mais tristes com a perda do patrimônio do que com a morte do pai. Esse é o mundo que é não o mundo do dever ser.
Diferente do mundo ideal ou do dever ser, onde tudo justo, fraterno, bonito. O mundo real não é um mar de rosas, e é nesse mundo real que o governante vai governa. “O príncipe deve amar o país mais do que a própria alma e está preparado para ir ao inferno por isso”. Maquiavel não ensina o caminho para o céu, ao contrário, mostra o caminho do inferno, para que o homem possa desvia quando possível. As conclusões do livro “o príncipe” são questões dolorosas sobre a política, e mostra como lógica política é inconciliável com a lógica cristã. Para muitos o livro é um verdadeiro guia para tiranos e totalitários, já outros afirmam que Maquiavel abriu espaço para tolerância ética e religiosa, direitos individuais e democracias modernas.
O governante deve ser bom sempre que possível e sempre que necessário, “tendo o príncipe necessidade de saber usar bem a natureza do animal, deve escolher a raposa e o leão, pois o leão não sabe se defender das armadilhas e a raposa não sabe se defender da força bruta dos lobos. Portanto é preciso ser raposa, para conhecer as armadilhas e leão, para aterrorizar os lobos” . As principais qualidades aconselhadas ao soberano dizem respeito ao seu espírito: Ser piedoso, fiel, humano, íntegro e religioso. Ainda assim Maquiavel reconhece que muitas vezes para se preserva o estado, será preciso e de encontro a todas essas qualidades, ou seja, a noção de necessidade poder justificar um comportamento que não seja virtuoso ou moral. O príncipe deve ser um ator político, pode não manter a palavra, não ser humano, devoto, de família, dependendo das circunstâncias. Porém deve parecer ser todas essas coisas. “As pessoas julgam pelos olhos como espectador” poucas pessoas conhecem o caráter do governante, o mundo ver o que o governante parece ser a aparência é muito mais importante que a realidade.
O livro mostra que “a diferença entre o modo como se deve viver e como se vivi é tão grande que o homem que ignora o que é feito realmente e se orienta pelo que “deve” ser feito, está a caminho da autodestruição”. Mesmo nunca escrevendo a famosa frase “os fins justificam os meios”, Maquiavel deixa claro em sua obra que os fins é o que importa. “Os homens têm menos têm menos escrúpulos em ofender quem se faz amar do que quem se faz temer, pois o amor é mantido por vínculos de gratidão que se rompem quando deixam de ser necessários, já que os homens são egoístas; mas o temor é mantido pelo medo do castigo que nunca falha.” Para Maquiavel os principais fundamentos de cada estado são boas leis e boas armas, por que você não pode ter boas leis sem boas armas e onde existem boas armas, boas leis inevitavelmente existiram. Nenhum governo pode adotar um comportamento seguro sem o uso da força, toda vez que alguém tenta escapar de um perigo, corre em direção a outro maior. Prudência consiste em ser capaz de avaliar a natureza de uma ameaça e escolher o mal menor.
A conquista de território também é um tema importante para Maquiavel, que define medidas estratégicas a ser tomada pelo governante, com fazer com que a linhagem do antigo príncipe seja extinta; não alterar nem suas leis nem seus impostos, sugere ainda, que quem se encontre á frente, de uma província diferente, deve tornar-se chefe e defensor dos menos fortes tratando de enfraquecer os poderosos e cuidando que em hipótese alguma nela penetre um forasteiro tão forte quanto o conquistador, pois a ordem das coisas é que, tão logo um estrangeiro poderoso penetre numa província, todos aqueles que nela são mais fracos, mudem de lado, movidos pela inveja contra quem se tornou poderoso em seu território. Maquiavel ainda lista alguns erros que não devem ser cometidos, como eliminar os fracos, da prestigio ao poderosos, colocar um estrangeiro poderoso no comando, não vim habitar no pais conquistado, não instalou colônias em suas proximidades. “Quem é causa do poderio de alguém se arruína por que esse poder resulta ou da astúcia ou da força e ambas são suspeitas para aquele que tornou poderoso”.
Por fim a obra de Maquiavel ganhou varias interpretações, como conselheiro do povo, nacionalista, absolutista e até mesmo republicano. Para muitos é nessa obra que nasce o realismo político, o livro é escrito em um gênero literário de transmissão de valores chamado de espelho dos príncipes, onde ensina o príncipe a governar pela grandeza o estado. O nome Maquiavel ecoou e continuara ecoando ainda por muitos séculos.

sexta-feira, 27 de junho de 2014


                                                       GLOBALIZAÇÃO

A noção de globalidade remete a conjunto integridade, totalidade. A palavra global carrega consigo o sentido de conjunto e inteiro. O nome globalização já sugere algo integrado, unido.
A globalização vista dessa forma não apresentaria quebras nem fraturas, pois globalizar sugere o oposto de dividir, marginalizar, expulsar ou excluir. No entanto a globalização, se apresenta de forma que enquanto países apresentam taxas de desenvolvimento exorbitantes, milhares de pessoas lutam para sobreviver sob condições extremamente precárias, uma verdadeira legião de perseguidos e refugiados. Então a globalização por se só não representa integração total, a globalização é caracterizada por uma crescente internacionalização da produção e troca de mercadorias que se estabelece em nível mundial. De forma que só se consegue globalizar realmente o que se torna mercadoria.
Globalizar também designa o intercâmbio político, social e cultural entre as diversas nações, mas atualmente intensificado pelas inovações cientificas e tecnológicas, na área da comunicação.
A globalização se propõe a representa uma nova forma de organização das sociedades, capaz de superar as identidades, capaz de superar as identidades nacionais, e os particularismos religiosos, étnicos e regionais. No entanto de forma contraditória ressurgem com força inusitada, em vários locais do planeta diversas manifestações fundamentalista, racista e terrorista que a humanidade considerava ter superado. Alguns teóricos consideram mais adequado denominar o fenômeno da globalização de mundialização do capital, pois ele representa o próprio regime de acumulação do capital e explica o conteúdo efetivo da globalização é dado não pela mundialização das trocas, mas pela mundialização das operações do capital, em suas formas tantas industrias quanto financeiras.
A conquista do mercado mundial pela exploração das forças de trabalho Criam contrastes sociais cada vez maiores, de um lado emerge enormes contingentes de desamparados sem moradia e condições mínimas de sobrevivência. A satisfação das necessidades básicas da população precisa da construção de um modelo alternativo de sociedade, no qual formas igualitárias e solitárias possam sobrepor-se aos interesses particulares do capital. É preciso reconhecer que a exclusão só pode ser enfrenta através de mecanismos políticos se o objetivo for construir uma sociedade mais justa. É preciso governa a globalização passa por tanto por decisões que questionem o modelo vigente e levem a construção de um modelo alternativo de estrutura social, sustentável, plural e democrático.

O conceito de brics é recente. São relações entre varias unidades nacionais que não possuem uma política comum. Os brics representam 42% da população mundial, 14,65 do produto interno mundial e 12,8% do volume de comercio global. Entre os BRICS a china se destaca por abarca um passado cultural de 4500 anos, possui uma identidade própria anterior as ideologias ocidentais. 40% do cimento mundial, 40% do carvão 30% do aço, 12% da energia, a China possui 1,3 bilhão de habitantes duas vezes maior que a população da America latina mas com apenas metade do território.tudo isso faz da China uma forte candidata ao lugar dos EUA, como maior economia mundial.
Ciência e pseudociência
Desde o início da humanidade o homem tem buscado explicar os fenômenos naturais e alguns artificiais, criados por ele, para explicar o mundo em que vivemos. Aos poucos foram surgido hipóteses que tentavam explica o que acontecia na natureza, estas muitas vezes se encontravam carregadas de um forte apelo emocional, coincidências, crenças, mitos, boatos, algumas evidências, até que se formulava uma hipótese. A partir daí surgi à ciência e junto com ela a pseudociência, pois no início era quase impossível separa uma da outra, tanto é, que a casos em que uma se torna a outra. É o caso da astrologia vista como ciência, se tornou pseudociência, pois não tinha consistência em suas afirmações e vai de encontro a princípios da física essa sim, uma ciência com base em teorias verificadas e comprovadas inúmeras vezes. Outro caso que podemos destaca é a alquimia, que evoluiu e se tornou química, umas das ciências que mais contribui para desenvolvimento da humanidade.
Diferente da ciência, a pseudociência evita se submeter suas alegações, a um teste valido, os pseudociêntistas nunca usam experimentos cuidadosos e metódicos, jamais refutam nem tão pouco dão a importância devida a experimentos realizados por cientistas, ignoram os fatos, e afirma veemente que seus métodos são validos. A Ciência convence pela evidência por argumentos fundamentados com base num raciocínio lógico ou matemático procurando extrair a melhor informação que os dados permitam. Quando surgi uma evidência nova que contradiz as idéias antigas, essas são averiguadas, com base em métodos de científicos e quando confirmadas, as antigas são descartadas. Já a pseudociência, convence apelando à fé e à crença, tenta converte não convencer, estabelecem dogmas que não aceitam questionamentos, temos que acreditar, mesmo que os fatos digam o contrario nunca se abandona a ideia original, qualquer que seja a evidência.
A pseudociência mesmo sendo falsa ela tem um poder de cativa mais as pessoas, pois mexe com a imaginação, com o lado lúdico, explica o inexplicável, por esse motivo diferente dos livros de ciências, os livros de astronomia, numerologia, vendem aos milhões enquanto os livros verdadeiramente científicos são poucas pessoas que demonstram algum interesse. O número de pessoas capazes de identificar o que é ciência e o que é pseudociência é muito reduzido, a grande maioria das pessoas são analfabetos cientificamente, e não conseguem distinguir  o que é uma coisa e o que é outra. Além do que, todos os dias somos bombardeado por todo tipo de pseudociência, nos rádios, jornais, TV, filmes. Tudo isso faz com que se torne difícil distinguir, pois a ciência não tem todas as respostas, já as pseudociências nos da todas as respostas, dentre essas respostas estão às três que mais afligem a humanidade: De onde viemos? O que estamos fazendo aqui? E para onde vamos?
Então enquanto a ciência não conseguir responde a essas perguntas, podemos dizer que a pseudociência tem um trunfo para continuar existindo, e consolando os corações aflitos por respostas, um pouco mais simples, e sem muita necessidade de reflexão e analise. Enquanto isso a ciência verifica, refuta, e por isso evolui, talvez as duas nasceram para conviver juntas por todo o sempre, uma ajuda a outra a evolui, já a outra nos conforta quando não encontramos respostas.